domingo, 9 de janeiro de 2011

Somente Cinqüenta e um



Estive esta semana em Itambé. A cidade continua na mesmice de sempre, entretanto há uma novidade que algumas pessoas comentaram comigo em tom de piada, mas que aconteceu mesmo e evitou um assalto à Agência do Banco do Brasil.

Na delegacia local está lotado um policial apelidado de “Cinqüenta e um”.

Contaram-me que alguns homens, suspeitos de fazer parte de uma quadrilha que vem assaltando bancos em cidades da Bahia (Monte Santo, Queimadas, Senhor do Bonfim e Feira de Santana) neste início de ano, chegaram a Itambé planejando assaltar a única Agência Bancária da cidade.

Com o objetivo de sondar as possibilidades pararam num bar perto do local utilizado como ponto de ônibus intermunicipal (a cidade não tem Estação Rodoviária), pediram uma cerveja e “puxaram assunto” (no dizer do dono do bar). Conversa vai, conversa vem, um deles perguntou:

- Onde fica a Delegacia?

O dono do bar informou.

Nova pergunta:

- Quantos policiais ficam de plantão lá?

Resposta do dono do bar:

- Somente Cinqüenta e um.

Comentário do assaltante:

“Vamos embora pessoal, aqui não vai dar. Se só na delegacia tem 51 policiais de plantão, no resto da cidade deve ter um policial atrás de cada poste”.

Entraram no carro e seguiram viagem pela estrada BA 415 em direção a Vitória da Conquista.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Movimento pela Paz: Nossas reações como reflexos condicionados

 
Chega o fim do ano e, como acontece há 13 anos, no dia 19 de dezembro, na Praça do Campo Grande,  Divaldo Franco coordenou mais um evento de encerramento da campanha anual que realiza em diversos bairros de Salvador, e também em algumas cidades do Brasil e do interior da Bahia, denominada Movimento pela Paz .

É um trabalho de construção de uma cultura de Paz;  um momento em que se reflete sobre o significado da Paz para a sociedade moderna, na qual os índices de violência chegaram a tal ponto que vivemos encarcerados em nossas casas, com portas e janelas de grades de ferro trancadas a cadeado e circuito internos de TV gravando tudo as 24h do dia.

Se vivemos em prédios de apartamentos, estabelecemos tantas “regras de segurança” que chegamos ao cúmulo de não permitir nem que o mensageiro da farmácia adentre as áreas internas do condomínio para entregar os medicamentos comprados por telefone.

Não nos relacionamos com os vizinhos. Quando muito balbuciamos somente um seco “Bom dia” nos elevadores e depois baixamos a cabeça porque não temos nada para conversar com quem, objetivamente, não conhecemos, ou seja, é nosso vizinho, mora ao nosso lado, mas não o conhecemos, não sabemos quem é.

Se saímos de carro, são portas travadas, vidros fechados, ar condicionado ligado e nem olhamos para o lado. Se algum motorista comete qualquer deslize ao volante já é motivo do outro abrir o vidro do seu veículo e proferir palavras de ofensa ao outro.

Até que, no trânsito, não muito “barbeira”, mas se eventualmente acontece um deslize; para estes casos procedo com calma. Quando sou xingada, abro o meu vidro, olho nos olhos do outro motorista ,candidamente esboço um sorriso e digo: “Tudo bem? E a família, como está? Mande lembranças”. Na maioria das vezes eles olham para mim e ficam na dúvida, se eu os conheço ou se sou louca mesmo.

Mas a coisa complica é quando saímos a pé para ir à academia fazer ginástica, à padaria da esquina ou ao mercadinho do bairro. Aí, qualquer transeunte é um “assaltante em potencial”. Simplesmente não olhamos para ninguém, não cumprimentamos ninguém e entramos em pânico a qualquer movimento em nossa direção. Por este motivo, desenvolvemos comportamentos e reações  de medo, tão automáticos  e incontroláveis que beira  o ridículo.

Às vezes eu me questiono de que vale tanta leitura, tanto curso, tanta participação em seminários, palestras, terapias, etc se cada vez mais nos tornamos inseguros.

Não que eu faça apologia à falta de cuidado consigo mesmo e com a família. Mas eu me pergunto se algumas de nossas atitudes não estão muito mais incentivando a violência e a agressão e deixamos de ter atitudes que realmente promovam a paz.

Eu poderia relatar aqui “N” casos acontecidos comigo por conta da minha militância no movimento espírita e das minhas “ex” (bancária) e atual profissão (assistente social), já que ambas, são atividades de risco.

Porém, quero refletir somente no fato de ontem: Nesta época do ano, é período do encerramento das atividades do Movimento pela Paz, do natal e das festas do ano novo e ficamos todos – ou quase todos - envolvidos numa atmosfera e numa psicosfera de solidariedade que nos deixa como que de “espírito mais desarmado”.

E foi assim que ontem, 30 de dezembro, por volta das 16h00 saí a pé do prédio onde resido para ir ao salão de beleza. É perto, mas tem que atravessar a rua e andar uns 200 metros. Pus um pouco de dinheiro, um cartão de crédito, o “inseparável” celular numa bolsinha e lá vou eu. Não andei 50 metros e fui abordada por um homem negro de mais ou menos 50 anos, que me perguntou: “Senhora, sabe se aqui nesta rua tem algum prédio que precise de um funcionário? Pego qualquer serviço”.

No momento da sua abordagem, enquanto o homem falava, automaticamente, recuei um passo, segurei a bolsa e devo ter feito alguma expressão no rosto que o levou a me dizer: “Não se assuste. Não vou assaltá-la. Eu estou procurando trabalho”. E começou a chorar.

Disse-me que viera do interior – de Itabuna – procurar trabalho, porque lá não consegue uma colocação no mercado. Que estava morando de favor na casa de uma senhora no Bairro do Cabula, mas que não poderia ficar muito tempo porque a senhora é pobre e não tem como acolher mais uma pessoa em sua casa e que, naquele momento estava com fome, porque saíra pela manhã para procurar trabalho e não conseguira. Que fora à Rede de supermercado G. Barbosa, mas que precisou de um documento que custava R$ 6,50 para pagar a taxa e que não dispondo dessa quantia perdera a oportunidade.

Diante desse quadro e com a sensibilidade que a minha idade e experiência de vida já me possibilitou acumular, pude avaliar que se tratava de uma pessoa de bem, apenas desesperada. Mas, como a regra geral de comportamento social, nestas situações, nos ensina a ser prudentes, não abri a bolsa, preferi levá-lo na padaria, providenciei um lanche e a quantia que ele disse precisar para pagar a taxa do documento e mais o dinheiro do transporte, despedi-me e fui embora.

Como recomendava Santo Agostinho, tenho por hábito todas as noites, antes de dormir, fazer uma revisão do dia que se passou. Avaliar as minhas atitudes, ver o que não foi realizado conforme os ensinamentos de Jesus e fazer as mudanças de rumo necessárias.

No caso que ora trato, constatei que fui preconceituosa e agi conforme o senso comum: "se a pessoa é negra, a probabilidade de ser assaltante é maior" e fui quase indiferente ao seu problema: procurei resolver a necessidade mais imediata, sem me aprofundar na questão central.

Hoje, pela manhã, fui à Federação Espírita Baiana (FEEB) participar de um momento de meditação pela paz com base no livro Reflexões sobre a Paz, ditado por Roberto Assagioli (espírito) psicografado por Ruth Brasil Mesquita (psicóloga e militante do movimento espírita baiano) e, mais uma vez, o caso do homem de ontem me veio à memória e fiz uma nova avaliação do meu comportamento: em que medida eu agi corretamente ou não.

Daí porque retornando ao meu blog depois de muito tempo quero abrir com as pessoas que me seguem e com os amigos uma discussão para o ano de 2011:

"O que significa a palavra Paz para nós?"

“Por que falamos tanto em Paz e não somos capazes de praticar a não-violência sob toda e qualquer forma?”

De que forma podemos nos afastar dos condicionamentos que a sociedade nos impõe e nos transformamos em potência e em construtores da Paz?

Feliz 2011

Angélica


domingo, 12 de dezembro de 2010

Estou voltando...

Diminuindo  o ritmo frenético de trabalho deste ano e já pensando nas famosas "resoluções de fim de ano" estou me (com)prometendo a retornar ao meu blog em 2011.

Angelica

sábado, 10 de julho de 2010

Uma promessa de retorno

Tem uns bons meses que não escrevo nada neste blog.

Andei viajando e quando voltei tem muita coisa para atualizar, muitos afazeres a por em dia.

No periodo da viagem, apesar do corre-corre para um lado e para o outro conhecendo alguns países do "Velho Mundo", ainda consegui  ler o livro O pensamento de Che Guevara escrito por Michael Lowi e iniciei a leitura de Os mortos permancem jovens   - autora Anna Seghers. Este acho que vai demorar um pouco, pois além de ter 635 páginas de uma letrinha miuda que se fosse no tamanho normal daria bem o dobro, já iniciei a leitura de O 18 Brumario de Napoleão Bonaparte, escrito por Karl Marx, que faz parte da bibliografia do nosso grupo de estudos na UFBA e tem mais uma pilhazinha de livros tecnicos ali do lado  olhando para mim (rsrsrsr), mas reafirmo o meu propósito de continuar pesquisando sobre os temas da vida e da morte, se não no mesmo ritmo de antes, pelo menos sem abandonar o projeto.

domingo, 9 de maio de 2010

Salvador: O trânsito, a Parada Disney e as multas de trânsito

A cidade do Salvador está se tornando intransitável na maior parte do dia e em qualquer dia da semana.

Devido ao grande número de veículos circulando na cidade, qualquer percurso tem demorado mais que o dobro de tempo que há pouco mais de ano se fazia para percorrê-lo. Não se encontram locais para estacionar e a Prefeitura lucra com a industria das multas de trânsito.

Semana passada, no dia 02 de maio aconteceu a "Parada da Disney" na região da orla marítima denominada Jardim de Alah. Eu tinha um compromisso no Centro de Convenções que fica na Praia de Armação, o Workshop anual de Divaldo Franco que se iniciaria às 9:00h. 

Temendo o trânsito, saí de casa às 7:00h e não fui pela orla marítima, preferi fazer um percurso maior passando pela Av. ACM e pelo Bairro Costa Azul. Estava bastante pesado o trânsito nestes locais, mas consegui chegar 15 minutos antes do inicio das atividades.

O que aconteceu ao meio-dia foi, no minimo, chocante: Foi dado o intervalo para almoço, das 12;30 às 14:00h. Quando chegamos no pavimento térreo do Centro de Convenções fomos surpreendidos com o fechamento do restaurante Prazeres da Carne pela Vigilância Sanitária devido ao fato de que, na quinzena anterior, houve um evento da ONU no Centro de Convenções e 80 (oitenta) pessoas foram parar no Pronto Socorro por ter ingerido alimentos deteriorados deste restaurante. 

O jeito foi sair para ir aos restaurantes da orla ou do Shopping Aeroclube. Porém era impossível sair de carro: Muitas pessoas que foram assistir à Parada da Disney, foram chegando com seus carros na pista de acesso ao Centro de Convenções e foram deixando os veículos da forma que deu: nas  calçadas, nas pistas, frente com frente, fundo com fundo, frente com lateral, fundo com lateral... e aí o trânsito no local simplesmente travou. Até andar entre os carros era difícil, pois não havia espaço entre eles e o pior era que não havia ninguém para organizar a bagunça e o que se via eram motoristas nervosos, buzinando alucinadamente, crianças chorando dentro dos veículos com fome e sem água para beber. As mães abrindo sobrinhas dentro dos carros tentando proteger os seus filhos do sol forte e do calor.

Para conseguir almoçar, andei entre os carros , sob o sol forte por, mais ou menos, 45 minutos. Almocei e voltei andando mais 45 minutos nas mesmas condições.

No final da tarde quando o evento terminou, os transtornos havia diminuido bastante, mas o trânsito continuava intenso. Desta vez retornei pela orla e demorei bastante para chegar em casa. Pelo caminho,ouvindo numa estação de rádio o Secretario Estadual de Turismo que dava uma entrevista, na qual informava que o público que acorreu à orla para assistir à Parda da Disney foi maior que o público do carnaval e que por isto houveram tantos transtornos.

Dois dias depois, - terça-feira, dia 04 de maio- Fui ao Centro da Cidade, novamente o caos. Em toda a extensão da Avenida Sete de Setembro, do trecho do Campo Grande até a Ladeira de São Bento, retornando pela Av Carlos Gomes e no Largo Dois de Julho não encontrei uma única vaga para estacionar. Já no retorno do Largo Dois de Julho para a saída novamente na Av. Carlos Gomes, encontrei um espaço junto de um restaurante, estacionei ali por 10 minutos enquanto ia numa farmácia, fui multada e perdi 04 pontos na Carteira de Motorista.
Ao receber em casa 02 dias depois a notificação, retornei ao local e vi que a alegação do motivo da multa (obstrução do trânsito) não procedia pois na posição em que deixei o carro e pelo tempo, que foi pouco, não tinha condição de causar transtornos.

Com isto chega-se à conclusão: Onde a TranSalvador deveria agir (na área do Centro de Convenções no domingo) não age, mas durante a semana espalha seus agentes para aplicar multas no centro da cidade onde os motoristas tem necessidades de estacionar para resolver problemas urgentes e não se preocupa de fazer um estudo sério da área e organizar o trânsito.

E antes que alguém me sugira recorrer, informo que é o que estou fazendo. Se vai surtir o efeito desejado aí já é outra questão.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Ortotanásia

Do grego orthos, correto, e thanatus, morte.

Entre os temas do meu interesse está a morte.

Não propriamente a Morte em si, mas o processo do morrer, de como este fenômeno tão normal e, tão certo em nossa trajetória no Planeta Terra, se dá. Quais são as suas variáveis e como nós nos relacionamos com um evento que, mais dia menos dia, acontecerá em nossas vidas.

Em criança, aos 08 anos de idade, presenciei a morte do meu avô Ernesto e até hoje, passados 52 anos, tenho a melhor lembrança desse fato.

Nunca tive medo da morte e achava estranho o pavor apresentado pelas pessoas à simples menção dessa palavra. Isto provocou uma curiosidade em mim que me levou, na idade madura, a buscar conhecer melhor o assunto para entender porquê as pessoas reagem tão mal ao fenômeno da morte. Quais são as suas motivações internas e externas para negar um fato que nos alcançará a todos.

Meu avô materno Ernesto, daí o nome da minha mãe: Ernestina. Porque era costume antigamente uma das filhas ter o nome do pai passando-se o substantivo para o feminino, era uma pessoa iluminada. Culto, calmo, bem humorado, afável, bom pai, bom avô, bom amigo, e de uma bondade infinita para com todas as pessoas. Nunca dizia a palavra NÃO a ninguém, sempre dava um jeito de ajudar as pessoas, fossem da família ou não, da vizinhança ou até da cidade – já que Itambé era uma cidadezinha do interior bem pequena em meados do século XX – quando nasci -, como é até hoje.

Pois bem, o “velho” Ernesto viveu até os 98 anos e tinha uma saúde invejável. Jamais havia se consultado com um médico ou tomado qualquer medicamento. Tinha um grupo seleto de amigos, entre os quais o Dr. Auterives Maciel – um dos dois únicos médicos da cidade.

Este grupo de amigos se encontravam diariamente na “Venda” (uma espécie de Armazém menor), localizado num dos boxes do Mercado Municipal de Itambé, de propriedade de um deles – o Sr. Gracelino. O objetivo dessa reunião diária, sempre às 11:00h na Venda do Sr. Gracelino era para bater papo e tomar cachaça num copinho pequeno que ainda hoje existe e que marca exatamente um “gole” – uma “dose”; diziam eles que era “para abrir o apetite” e no final dessa reunião, por volta das 11;45h iam cada um para a sua casa. Almoçava e se deitava para a “sesta” que eles chamavam de “tirar um cochilo” – coisa de no máximo, 01 hora. Até hoje eu cultivo esse hábito aprendido do meu avô e todos os dias depois do almoço eu “tiro o meu cochilo” e se não fizer isto, passo a tarde indisposta e mal-humorada.

As pessoas daquela época gozavam de muito boa saúde. Creio que era devido à qualidade de vida: Dormia-se cedo e acordava-se com o cantar do galo para ir ao curral ordenhar as vacas – muitas e muitas vezes tomei canecas de leite quentinho, ali mesmo no curral, sem fervura, acabado de ser extraído das tetas das vacas – a alimentação era constituída de frutas, verduras e legumes produzidas ali mesmo. Uma parte ficava para a família e o excedente era vendido na feira: uns compravam dos outros o que não produzira; consumia-se pouca carne – dos animais criados ali mesmo no pasto.

Como automóvel, leia-se Jeep Willys, era coisa que pouca gente possuía e não havia transporte coletivo, caminhava-se muito, o que contribuía sobremaneira para a realização de exercícios aeróbicos – imagine percorrer diariamente 04, 05 léguas (cada légua tem 06 km) para ir à roça pela manhã e outras 04 ou 05 à tarde para voltar à cidade, respirando ar puro. E ainda trabalhar o dia inteiro! É uma grande contribuição à saúde.

Essas léguas eram percorridas em estrada de terra, num estreito caminho entre as cercas que marcavam os limites das fazendas, cuja largura permitia apenas o trânsito de um carro de boi ou de um Jeep – se viesse outro em sentido contrário, tinha-se que ambos diminuir a marcha e manobrar para bem perto da cerca a fim de um permitir a passagem do outro sem provocar um arranhão no veículo contrário.


Àquela época nós morávamos numa casa construída numa porção de terra que ficava numa das margens do Rio Verruga, hoje denominada Sitio São Jorge; no lado oposto já era a cidade. Separando esta porção de terra da cidade havia uma ponte de madeira, algumas vezes as tábuas da ponte se quebravam quando os Jeeps a atravessavam carregando muito peso, proveniente das colheitas nas roças ou da carne dos animais abatidos e ficava dias e dias sem serem repostas, sendo muito perigoso atravessar a pé a ponte e ocorrer um acidente.

Este fato jamais impediu o meu avô de ir diariamente à cidade, ao mercado e à Venda do Sr. Gracelino: se faltava uma tábua de madeira da ponte e era difícil atravessá-la em pé, ele se ajoelhava e vencia o obstáculo engatinhando.

Em épocas de aulas eu ia para a Escola pela manhã e às 11:30h quando terminavam as aulas eu passava pelo mercado, me encontrava na Venda com o meu avô e voltávamos para casa lá pelas 11:45h. Ele me esperava todos os dias.

Um dia, ele não se levantou cedo, não foi ordenhar as vacas e nem veio tomar o café da manhã. Eu já me encontrava arrumada para ir à escola. Fui no seu quarto e perguntei: “Vovô você não vem tomar café hoje?” Ele disse-me: “Não, minha neta. Hoje estou cansado”. Fui na cozinha e relatei este diálogo para a minha mãe. Ela disse-me, “Vá para a escola, que eu vou ver o meu pai. Não se preocupe”.

Fui para a escola e, como toda criança de 08 anos, me envolvi com as aulas, com as brincadeiras do recreio e não pensei mais no assunto. Às 11:30, saí do Prédio Escolar (não tinha o nome de Colégio, isto era coisa chique da cidade vizinha Vitória da Conquista que tinha o Colégio Normal Diocesano) e fui ao mercado. Ao chegar na Venda do Sr. Gracelino, os amigos do meu avô me perguntaram: “Menina, por quê Ernesto não veio hoje?” Fiquei confusa, pois era a primeira vez que o meu vovô não me esperava, informei que não sabia o motivo, mas que pela manhã ele havia dito que se encontrava cansado e não tinha se levantado. Fui para casa.

Ao chegar, fui direto ao quarto do vovô, ele estava deitado quieto. Acerquei-me da cama e falei; “Vovô, porque você não foi me esperar na Venda do Sr. Gracelino? Seus amigos perguntaram por você e eu não soube dizer porque você não foi hoje lá.” Ele me disse: “Vá se trocar para almoçar. E eu perguntei: “Você não vem?”Ele respondeu: “Não. Estou cansado“.

Fui para o meu quarto, me troquei e ao chegar na sala para almoçar, comentei com a minha mãe sobre essa “novidade” do vovô. Ela me disse que ele estava idoso, que havia trabalhado muito a vida inteira e que era natural que quisesse ficar um pouco mais na cama para descansar. Mais tarde ela levaria o almoço dele.

Almocei, mas sempre preocupada como o vovô, fui para o seu quarto e me deitei juntinho dele para fazer a sesta ali; ele me pediu que tivesse cuidado com os pés para não chutá-lo. Acomodei-me, meio encolhida nos pés da cama e vi quando, mais ou menos, meia hora depois minha mãe chegou com um prato na mão, colocou em cima de um banquinho e tentava recostar o vovô com travesseiros, mas ele era muito alto e pesado e minha mãe encontrava dificuldade de efetuar sozinha a manobra sem machucá-lo. Ele não reclamava de dores. Só dizia: “Me deixe descansar, minha filha” e ela redargüia “Meu pai, o senhor precisa se alimentar um pouco. Não comeu nada hoje” e ele respondia: “Me deixe, menina. Estou cansado”. Esse diálogo durou bem uns 10 minutos, minha mãe tentava convencê-lo a se alimentar e ele obstinadamente dizia que não queria, que estava cansado.

De repente vovô parou de falar e o seu corpo ficou desgovernado; não coordenava mais os seus movimentos. Minha mãe gritou para mim; “Corra. Vá à casa do Dr. Auterives e peça-lhe para vir ver o meu pai”.

Saí correndo, pelo caminho de terra, atravessei aponte de madeira sobre o Rio Verruga, continuei pela lateral do mercado, atravessei a Praça da Bandeira, cheguei na casa do médico e comecei a chamá-lo aos berros, ele estava fazendo a sesta, acordou aborrecido, chegou na janela do sobrado e perguntou que gritaria era aquela. Quando eu contei sobre o vovô, ele desceu vestindo a camisa entrou no Jeep, ordenou que eu entrasse também e rumou para a nossa casa.

Quando chegamos, ele entrou no quarto, minha mãe estava sentada na cama com a cabeça do vovô no colo e eu fui providenciar a toalha e a bacia com água para o médico lavar as mãos após a consulta, como era costume naquela época, pois não havia nem água encanada , quanto mais banheiro, pia, etc. Ao voltar ao quarto, ainda tive tempo de ouvi-lo dizer à minha mãe: “Mas Ernesto não foi tomar a pinga conosco hoje e agora morreu antes que eu chegasse. Nem esperou para dizer adeus. Mas não se preocupe, Ernestina, ele não sofreu; não teve doença nenhuma. Morreu de velhice mesmo”. Fiquei ali, parada, com a bacia e a toalha nas mãos. Minha mãe chorava baixinho, e o vovô parecia que estava dormindo.

O médico pegou a bacia e o sabonete. Lavou as mãos. Enxugou. Pegou a maleta e disse: “Venha comigo no Jeep”. Obedeci sem saber porquê. Já na sua casa, ele chamou a esposa – D. Sibéria – deu a notícia e entrou no consultório. Ela veio até onde eu estava, me pegou pela mão, me pôs sentada numa cadeira e chamou “Mulata” – a empregada – pediu um copo de água com açúcar, me fez beber e disse-me: “Não fique triste. O vovô foi para o céu. Você vai sentir saudade por uns dias. Depois se acostuma e passa. Sua mãe vai sofrer mais um pouco. Cuide dela.”

Nesse instante amadureci muitos anos, pois ainda uma criança de 08 anos, vi morrer o meu avô a figura masculina que era o meu referencial, já que o meu pai não vivia conosco, e tomei consciência de que agora éramos só nós duas, a minha mãe e eu, e que eu tinha de cuidar dela que estava fragilizada. Não chorava, mas sentia uma tristeza imensa por pensar nunca mais veria o vovô, ao mesmo tempo ficava conformada por saber que ele ia pra o céu e que ficaria bem, mas também começava a pensar como fazer para ajudar a minha mãe nesse momento de tristeza.

O Dr. Auterives me deu um papel e disse que entregasse a minha mãe, que era para o sepultamento do vovô. Era o atestado de óbito. Saí e quando cheguei em casa já havia muitas pessoas, parentes, amigos, vizinhos. O vovô já tinha sido banhado e barbeado e puseram a melhor roupa que ele tinha. Estava na sala de visitas sobre a sua cama para o velório. O caixão estava sendo confeccionado e chegaria mais tarde – naquela época não havia funerária na cidade e quem confeccionou o caixão foi o tio José (um dos filhos), que era marceneiro.

Entreguei o Atestado de Óbito à minha mãe, dei o recado do Doutor Auterives e de D. Sibéria que haviam mandado dizer que viriam mais tarde para o velório. A partir daí me sentei na sala e, mais tarde, no terreiro, onde à noite foi acesa uma fogueira e passei a prestar atenção nas conversas dos adultos.

Todos chegavam na sala, iam perto da cama, olhavam para o vovô faziam o sinal da cruz, oravam um pouco e depois iam se juntar aos demais, numa conversação que, se não era alegre, também não era triste. Os assuntos giravam sempre em torno da figura do vovô e da sua bondade, da sua afabilidade, do seu bom humor, das suas piadas e riam repetindo a forma como ele as contava. Muito tarde da noite – não me lembro a hora – dormi - e acordei pela manhã, com a minha mãe me chamando para tomar café. Disse-me que eu não ia para a escola naquele dia. Dei-me conta novamente da morte do vovô.

Por volta das 11:00 hs, havia muitas pessoas na casa e no terreiro. Chegou “Quelé” o fotógrafo da cidade para fazer a última foto do vovô. Foi feita uma foto dele sozinho no caixão e outra com os familiares – minha mãe, minhas tias Hosana e Teodolina e os meus tios José e João. Os primos e as primas. Eu não quis ir. Um dia destes – coisa de uns dois anos atrás, mexendo num baú de coisas da minha mãe, vi lá a foto do vovô com toda a família, menos eu.

Na hora em que foram levar o caixão para o cemitério, minha mãe não me deixou ir e eu fiquei sem entender porquê. Mas uma coisa me marcou; eram 11:30h – a hora em que eu saía da escola e ia encontrá-lo na Venda do Sr. Gracelino para ir para casa almoçar e, alegremente, contava-lhe como fora o meu dia; as conversas com as colegas de sala de aula, as amigas, os recados da professora... Então eu pensei como vai ser agora? A quem vou contar as novidades?

Alguns dias se passaram e eu voltei à escola. A rotina estava diferente. Não tinha mais o vovô para me esperar na Venda do Sr Gracelino e me ajudar a atravessar a ponte.

Um dia, não agüentei a saudade e fui ao cemitério para ver ode estava enterrado o meu avô. Lá, no seu túmulo simples, sem lápide, só uma cruz com o seu nome pintado de preto, uma estrela pintada antes da data do nascimento e uma cruz antes da data da morte. Sentei-me e contei-lhe dos meus dias sem a sua presença, da falta que me fazia e da alegria de saber que ele era um homem muito bom, como todos os amigos falaram no velório e que estava no céu com Jesus, como dissera a D. Sibéria. E que, lá na casa de Deus os anjos tocavam flauta doce para ele não sentir saudade de nós e não ficar triste, como a gente estava aqui.

Fui para casa. Não contei a minha mãe o que fizera para ela não chorar, mas escrevi num caderno e agora, muitos anos depois, transcrevo aqui.

Ao que lembre, a tristeza passou até um pouco rápido, ficou a saudade, que perdura até hoje e uma lembrança carinhosa de uma pessoa que marcou profundamente a minha vida. Que me ensinou a viver olhando a vida com os olhos da bondade, do amor ao próximo e a ver a morte como um fenômeno natural.

Foi através do exemplo de vida do meu vovô querido que nunca me assustei com a possibilidade de morrer e sempre considerei a vida, com todas as dificuldades que passei e que, ainda passo, um presente de Deus.

É por causa dele que amo tanto os idosos e me dou tão bem com eles.

Foi presenciando a forma abençoada como o vovô desencarnou que passei a estudar a morte para melhor compreendê-la e ajudar as pessoas a não temê-la. Nas minhas experiências ao longo da vida, tive já oportunidade de conversar com muitas pessoas em estado terminal, umas aceitando a doença ou o acidente e a aproximação da hora do desencarne com serenidade, outras assustadas, intranqüilas, preocupadas com que lhes acontecerá em face dos dogmas religiosos apreendidos na educação que recebera em relação ao transcendental.

Há bem pouco tempo, vi, algumas vezes, em hospitais super equipados de aparelhos que objetivam prolongar a vida de pessoas portadoras de doenças que a medicina não cura mais por já estarem esgotados todos os seus recursos, o sofrimento do doente, a angústia dos familiares e o dilema dos médicos para abrir, ou não, mão dos recursos e deixar aquele ser simplesmente ir, descansar, parar de sofrer...


Li na Revista Veja do dia 28 de abril de 2010 a matéria intitulada “Ajuda para Morrer – A Ética na Vida e na Morte” onde se referindo ao novo Código de Ética que entrou em vigor em 2009, discute-se a redação dos seus Artigo 41 (e seu parágrafo único) e Artigo 42 e como “os médicos, pacientes e seus familiares enfrentam os excruciantes dilemas levantados pela possibilidade médica de prolongar ou abreviar a agonia de pacientes terminais” (copiado da Revista).
O ato do médico que, atendendo ao rogo do paciente e/ou de sua família, em vista da inutilidade dos tratamentos agressivos aplicados às vitimas de doenças irrecuperáveis e irreversíveis, modernamente denominado de “Ortotanásia”, não encontra, no Brasil, amparo legal, mas dificilmente um médico será punido criminalmente por este ato, nas condições citadas.

Foi após esta leitura que me lembrei da forma como morreu o meu avô; da minha mãe, que, atualmente conta 96 anos, completados em outubro de 2009, e está em gozo de excelente saúde. Fiquei pensando nestas outras pessoas, referidas na matéria, em algumas outras que conheço portadoras de doenças que talvez, um dia, cheguem a essa situação.

Ao longo de muitos anos de estudos e de aproximação com pesquisadores, como a Dra. Roseli Trigo – cuja tese de doutorado versou sobre Tanatologia; os conhecimentos que acumulei através de leituras, cursos, seminários, ainda não me permitem discernir se é melhor insistir nos cuidados paliativos ou se há validade no procedimento da Ortotanásia, se nós, seres humanos, temos mesmo esse direito de desistir da vida seja sob que condições forem.

Sinto que esta pesquisa solitária que faço não é a ideal, por não ter com quem discutir, analisar, ouvir criticas, colher impressões, conhecer outros pontos de vista. Às vezes até fico constrangida e levo na brincadeira quando meus amigos estranham esse interesse que tenho pelo tema da morte, de visitar cemitérios, de buscar literatura sobre o assunto. É difícil as pessoas entenderem um interesse desses

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Meu medo é esse. Qual é o seu?

Gosto de observar o cotidiano, as pessoas, os fatos e os atos. Isto constitui um excelente exercício de aprendizado.

Nesta quinta-feira, cheguei na academia onde faço hidroginástica e me deparei com o funcionário da manutenção da piscina com duas folhas de papel. Uma colada no peito e outra nas costas. Na do peito lia-se “Meu medo é esse”, na folha das costas: “Qual é o seu?”.

Como na folha colada no peito continha uma afirmativa e não indicava o seu objeto, fiquei curiosa e perguntei ao rapaz:

- E aí, qual é o seu medo? Não está escrito aí na folha.

- Ah! Senhora é porque os medos são tantos que não cabem na folha...

-Sim, mas quando você afirma: “é esse”, refere-se a um só. Qual é?

E em bom baianês ele disse:

- Oxente, é o da morte!

- Por quê da Morte?

- Porque se ela vem, os outros medos todos perdem a razão de ser. A gente já morreu mesmo, não tem porque ter mais medo. (virando as costas para mim, perguntou) E a senhora, “qual é o seu?

E eu respondi:

- Os outros medos todos.

- Por quê?

- Porque todos eles vêm antes da Morte. E como a Morte como fim de tudo não existe, os outros medos permanecerão se a gente não os trabalhar antes de pensar que morreu.

- Por isto mesmo que já estou fazendo as pessoas perceberem a inutilidade de ter medo. A não ser o medo que as faz cuidar das suas vidas. Este medo é importante porque evita a violência, a arrogância, a indiferença, o orgulho, a maledicência e muitas outras coisas negativas.

Após esta última frase do zelador, fui para a piscina, fiz a ginástica e não parei de pensar no quanto ele tinha razão: se todos fôssemos, ou, pelo menos, procurássemos ser pacíficos, simples, solidários e puséssemos em prática a máxima “Faça aos outros o que gostaria que ou outros fizessem a você”, viveríamos todos em paz e não precisaríamos viver com medo, de tudo e de todos.